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Ao longo da vida, passei a visitar os cemitérios com frequência. Sempre gostei da paz e do silêncio que eles proporcionavam, além das histórias dos túmulos e, com o tempo, dos coveiros. Sempre que viajava buscava conhecer a história daquela nova cidade, e muito da história de uma cidade pode ser contada pelos seus cemitérios. Gostava de sentar e conversar com os coveiros, observar seu trabalho, ouvir seus causos. E naturalmente, morte se tornou meu objeto de estudo e de trabalho.

Minhas experiências pessoais com perdas e morte acabaram me "qualificando" de uma forma um pouco penosa, mas especial, para poder falar sobre isso. Atualmente eu pesquiso sobre morte no mestrado, e isso me possibilitou fazer academicamente coisas das quais eu já fazia na minha vida pessoal: pensar sobre morte, escrever sobre ela, ressignificá-la. 

E tanto aqui neste espaço quanto no Instagram, compartilho com vocês o que aprendi estudando e trabalhando sobre a morte e o morrer. Acredito que o peso da morte pode ser difícil, mas que podemos carregá-lo com amor e com graça. 

Um abraço,

Ana Costa

Sobre mim

Eu tinha quatro anos quando houve a primeira de várias mortes na minha família. Apesar disso, nunca pensei que morte fosse algo que pudesse ter relação com quem eu sou e como me apresento para o mundo, mas aqui estamos: a morte e eu temos um relacionamento meio intenso, e não é só porque ela me visita com frequência, mas também pelo contrário. Era 1993 quando aconteceu a primeira morte que eu me lembro. O cemitério lotado de gente, debaixo de chuva. Dessa vez não conversei com nenhum coveiro, mas essa foi a primeira de muitas vezes em que eu entrei num cemitério.

Os estudiosos da morte dizem que a gente percebe a morte primeiramente pela morte-do-outro, e não pela ideia da nossa. O outro que morre nos dá a percepção da finitude da vida. Mas ver aquele morto não elucidou muita coisa para mim. Aos quatro anos, sem ninguém para explicar o que estava acontecendo, demorei muito para compreender o que era a morte. O conceito de morte para uma criança pode ser muito complicado, principalmente se não há algum adulto para guiá-la através de tamanha abstração. Se eu soubesse o que era morte, talvez tivesse ficado com a minha família no momento daquele enterro, mas não. Ali, decidi passear sozinha pelo cemitério. Aquele lugar tão diferente e cheio de mistério. Percorri suas ruas com seus túmulos e árvores, pela primeira vez de muitas.

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