Sobre Lords of Chaos

04:46

(Esse é um post sobre um filme que fala sobre um monte de metaleiro esquisito. Tem spoiler do filme, tem gatilho de suicídio e eu me estendo bastante aqui, então leia por conta e risco.)



Lords of Chaos (2019) é um filme sobre o surgimento da cena musical Black Metal da Noruega, o Inner Circle, no início dos anos 90, mas também é um filme sobre jovens que perderam o controle. Eu não sei por que a história deles me fascina tanto. Mas eu não sou a única, considerando que o interesse por ela, que já atingiu proporções quase mitológicas, nunca se esgotou com o passar dos anos, e foi reacendido pela obra de Jonas Åkerlund, por bem ou por mal.

O título vem do livro de mesmo nome publicado em 1997 por Michael Moynihan e Didrik Søderlind, mas o filme não é baseado inteiramente nele. No início do filme, as palavras “baseado em verdades, mentiras, e no que realmente aconteceu” mostram que este é um trabalho ficcional baseado em fatos reais. O roteiro, co-escrito por Åkerlund e Dennis Magnusson, percorre por gelo fino entre ficção e principalmente, as várias possíveis versões da verdade do que ocorreu.

A história gira em torno de Øystein ‘Euronymous’ Aarseth, jovem criador da banda Mayhem, Per ‘Dead’ Ohlin, Kristian ‘Varg’ Vikernes e os eventos que levaram o estilo musical “True Nowergian Black Metal” da criação em 1987 ao ápice, e que terminam com a brutal morte de Euronymous provocada pelo ex-companheiro de banda, Varg Vikernes (one-man da banda Burzum), em 1993. Entre tudo isso, o suicídio de Dead,  a inauguração da primeira loja de música extrema da Noruega, Helvete (inferno, em norueguês) assassinatos e a queima de igrejas históricas da Noruega. Estes são os fatos. Mas o filme vai além dos fatos e nos conta uma história sobre transgressões, doença mental, a linha tênue entre arte e vida real, e principalmente sobre quais limites não devem ser cruzados em busca de colocar em prática uma imagem fabricada, uma persona.
O diretor Jonas Åkerlund foi baterista da banda Bathory entre 83 e 84, uma grande influência para a criação do Black Metal, então ele fala a partir de um lugar familiar para ele. Sua experiência posterior produzindo clipes musicais (entre Rammstein e Madonna, e curiosamente um clipe de Candlemass onde Per ‘Dead’ Ohlin fez figuração) garante, antes de tudo, um filme visualmente muito bonito, com cenas impactantes, como o suicídio de Dead e a queima das igrejas. Mas ele é um bom filme por vários outros fatores, incluindo roteiro, trilha sonora (composta por Mayhem, Bathory, Dio, Sarcófago, Celtic Frost, mas também coisas nada extremas como Dead Can Dance e Tangerine Dream). Outro destaque fica pela sensacional reprodução das fotografias da época, que beira à perfeição nos detalhes. Estamos falando aqui de uma época em que a fotografia analógica era a principal forma de registro, e principalmente porque a fotografia é parte importante nesta história, como veremos mais adiante.
O contexto sociocultural em que eles estavam inseridos merece pesquisas antropológicas à parte, e é possível se aprofundar nesse assunto assistindo aos documentários “Until the light takes us” e “Pure Fucking Mayhem”. O filme retrata isso de forma cômica, mas real, e talvez isso irrite muita gente, mas a verdade é que os jovens retratados aqui estavam na faixa dos 18 anos, eram de classe média e moravam com os pais em um país de primeiro mundo. Contra o que exatamente eles se “rebelaram”? Eles usaram a música para subverter ao status quo, mas a música extrema passou a ser um estilo de vida, uma filosofia marginal que alcançou o mundo e ultrapassou limites do que era moralmente ou legalmente aceitável.  

Cada novo ato extremo aumentava o nível que os demais teriam que ultrapassar. O que hoje se vê comumente em shows do gênero (animais mortos no palco, corpse paint, atos brutais) foi praticamente inventado por Dead. Pelle enterrava suas roupas para que começassem a se decompor e inalava animais mortos antes dos shows para cantar “com o cheiro da morte em suas narinas”. Além disso, mutilava-se profundamente durante os shows, chegando a desmaiar em uma ocasião. O sueco, que se mudou para a Noruega para integrar a banda Mayhem, vivia em isolamento social e em profunda depressão, dedicando-se unicamente à banda enquanto os demais membros tinham família e outras coisas pra fazer. É curioso ver como em cerca de 3 anos na Noruega ele marcou a vida de tanta gente, que até hoje fala sobre ele com afeto apesar de sua personalidade autodestrutiva, e visitam constantemente seu túmulo, tal qual um Jim Morrison da música extrema. Mas as pessoas falam de Per Ohlin como o insano Dead, que havia parado de comer para ficar com a aparência mais cadavérica - Necrobutcher fala em Pure Fucking Mayhem que “ele gostava do visual magrelo, era um conceito”, enquanto nas entrelinhas de entrevistas, Pelle sangrava profusamente pelo nariz de tão mal nutrido e não era socorrido pelos companheiros de banda ao se mutilar (uma cena do filme mostra a banda após um show comendo hambúrguer e conversando enquanto Dead mal consegue falar, pálido pela perda de sangue e com os braços remendados com fita elétrica). Mayhem, e a cena como um todo, se beneficiaram da pulsão de morte de Dead e a utilizaram até o último recurso possível. Relatos de quem os conhecia mostram que Euronymous e ele brigavam bastante, e Euronymous teria sido responsável por levá-lo ao limite com bullyings e intimidações. Por várias vezes Euronymous incentivou o suicídio de Dead até que isso se concretizou, e nem assim ele foi tratado com respeito, pois Euronymous fotografou o corpo de Pelle, utilizando a foto do suicídio como capa do álbum “Dawn of the Black Hearts”, algo que assombra a família do rapaz até hoje (procure por sua conta e risco, eu não perpetuo essa merda por aqui).
A cena do suicídio de Dead é grotesca e muito, muito triste. Eu passei quase metade da minha vida lendo ocasionalmente sobre isso, mas ver acontecer adicionou uma outra dimensão pra mim. Dead comete suicídio por volta dos 12 minutos de filme, mas é de longe o personagem mais memorável, pois sua existência pautou muito do que aconteceu depois. Da história real, ele é o único personagem que me marcou de fato, pois ele era um cara que precisava de ajuda e ao invés disso encontrou um grupo social que agravou o que quer que ele tivesse e sua vida foi interrompida cedo demais, aos 22 anos. Além disso, qualquer ato violento e destrutivo que tivesse foi voltado apenas para si mesmo, ele jamais feriu alguém ou destruiu algo, sendo o único ali isento de qualquer culpa pelo que aconteceu no Inner Circle. Seu ato mais extremo depois de seu suicídio, foi deixar de presente todas as letras utilizadas posteriormente para gravação do álbum "De mysteriis dom sathanas", incluindo a belíssima Life Eternal:

"I am a mortal but am I human?
How beautiful life is now when my time has come
A human destiny but nothing human inside
What will be left of me when I'm dead
There was nothing when I lived."

Os atos de Euronymous utilizando a imagem do amigo morto para autopromoção levaram o baixista Necrobutcher a abandonar a banda, e deu-se início a uma série de atos extremos, catalisados por Euronymous, a fim de promover a imagem satânica do Black Metal ao redor do mundo. A história das queimas de igrejas e dos crimes provocados pelos membros do Inner Circle viraram notícia por toda a Noruega, e até hoje os nomes de Mayhem e Burzum são conhecidos pelos noruegueses, quase como um domínio público. Chega a ser revoltante observar que Euronymous, o brilhante criador do True Nowergian Black Metal, o estilo musical mais satânico, underground e extremo que já existiu, além de toda a filosofia anticristã e anti-moral que devia ser levada a sério (“This is not a joke— you are terror incarnate”) era nada menos que o maior poser de todos os personagens desta infeliz história, agindo como um mestre de fantoches que falava muito e não fazia nada, deixando os atos para aqueles influenciados por ele. Isso fica bem evidente no filme quando ele tenta - e consegue - levar o crédito pelo assassinato de um homem gay por Faust, baterista do Emperor e funcionário da Helvete, e pelas queimas de igrejas iniciadas por Varg e que acabaram saindo do controle do Inner Circle. E com tudo isso, formava-se uma imagem que, acima de tudo, vendia. É preciso lembrar de tudo o que aconteceu antes de se declarar “o trve”, porque Mayhem foi fundada em cima de uma falácia genialmente construída: “Saying things like ‘Never sell out’ fucking sells.”
Euronymous não costuma ser bem falado pelos ex-companheiros até hoje, e era visto como uma péssima pessoa, constantemente trocando ameaças de morte com quem sinalizasse atrapalhar seus planos, e por esse motivo acabou sendo assassinado aos 25 anos por Varg Vikernes, que resume a coisa toda num “antes ele, do que eu”. É curioso notar que o filme faz um trabalho de “humanizar” Euronymous. Por ser narrado em primeira pessoa por ele (de forma póstuma, tal qual Brás Cubas) o espectador quase sente simpatia pelo personagem (um protagonista/antagonista), enquanto consideramos Varg Vikernes um nazista e xenófobo lunático com delírio de grandeza (não que ele não seja tudo isso). Acho que Åkerlund teve uma difícil escolha pra fazer: Euronymous e Varg eram egoístas, irresponsáveis, imaturos e impulsivos. Mas no fim das contas, Varg é quem ainda está vivo, e quem ainda faz piada até hoje com a morte do ex-companheiro de banda em seus vídeos no Youtube, e além disso, realmente acredita até hoje na filosofia de vida que segue, sendo verdadeiro com ela. Seria muito difícil que o filme fosse tão bom se essa “roupa de humanidade” não tivesse sido utilizada por Jonas, pois seria um filme composto apenas por antagonistas, personagens difíceis de se identificar e de gostar. Euronymous foi um ser detestável até sua (banal) morte, mas era necessário humanizar o personagem pro filme funcionar.

Eu conheço Black Metal há metade da minha vida. Já gostei muito, já gravei som em fita K7, trocava “missivas” com outros “guerreiros” para falar sobre “hordas” usando cartas sociais, tive zines a respeito do tema, entrevistei bandas, ajudei a organizar shows na minha cidade unicamente voltados ao metal extremo. Por alguns bons anos, vivenciei essa coisa do metal de forma bem intensa, então eu consigo, como expectadora do filme, compreender a complexidade e a banalidade da situação (não que seja necessário esse background, mas ajuda). E a história de Mayhem e Burzum sempre foi bastante comentada nas rodas de conversa que eu participava, eu praticamente cresci ouvindo sobre isso. Lords of Chaos é um filme incrível e deve ser visto como ele é: uma versão romantizada dos fatos que ocorreram na Noruega nos anos 90. Ele é a entrelinha do que aconteceu, imaginada por Åkerlund, e independente da sua relação com a música extrema, é um bom filme que vale a pena ser visto.

Talvez, por essa profunda identificação, eu tenha decidido escrever sobre o filme. Ou talvez eu precisasse falar algumas boas e longas linhas sobre como essa coisa toda é bem ridícula, e também sobre Dead, não sobre o Dead dos palcos, mas sobre Per Yngve Ohlin como o atordoado jovem que eu enxergo e que merecia mais.



Você também pode gostar

0 comments

Obrigada por ler o post até o fim! Eu sempre respondo os comentários, então se você gostaria de ver minha resposta, clique no botão "notificar-me"!
<3

Subscribe