O que achei da série "Ordem na casa" com Marie Kondo, da Netflix

18:17

Nos últimos dias as pessoas têm comentado bastante sobre a série "Ordem na casa", da Netflix, em que a Marie Kondo ajuda as pessoas a destralhar seus pertences e organizar suas casas com o método "Spark Joy". Marie Kondo ficou famosa mundialmente por volta de 2012 com seu livro "The life-changing method of tidying up" (aqui no Brasil o livro se chama "A mágica da arrumação"). Há outro livro lançado, uma versão ilustrada e mais esclarecida do método, chamado "Isso me traz alegria". O sucesso foi tão estrondoso que no início desse ano virou série e falarei sobre ela neste post, como sempre trazendo um pouquinho de psicologia pra conversa.



Eu já vinha flertando com minimalismo porque acompanhava blogs como o Zen Habits do Leo Babauta, e o The Minimalists de Joshua e Ryan há anos. Nunca me considerei minimalista, mas sempre flertei com a ideia e sou advogada da causa de abrir espaço para o que é relevante ou especial na sua vida, eliminando o que é supérfluo. 

Nós vivemos numa sociedade capitalista que está no auge da era do consumo. Tudo é descartável, inclusive coisas que não são coisas, como o filósofo Zygmunt Bauman teorizou durante toda a sua vida. Estamos habituados a comprar de forma automática, a estocar itens repetidos em casa, a comprar coisas descartáveis ou de baixa qualidade, e ao mesmo tempo nos apegamos a tudo o que compramos, muitas vezes sem jamais usá-las. 

Após vender milhões de cópias de seus livros e montar uma verdadeira legião de seguidores por causa de seu método, a japonesa Marie Kondo vai para os Estados Unidos ajudar a organizar a vida de 8 famílias. Seu método é simples e sua teoria às vezes é questionada, mas quem segue à risca ao que ela sugere garante sua eficácia. Resumidamente, o ideal é que só mantenhamos em nossa vida itens que nos trazem alegria, e que a melhor forma de organizar o que temos é separar essas coisas por categoria para poder ter uma ampla visão do que possuímos. Eu já falei sobre o livro dela aqui, e também expliquei a ordem das categorias e disponibilizei um checklist para download aqui no blog, então não vou me estender neste ponto.

Eu utilizei o método dela em 2015 e funcionou horrores pra mim. Passei a fazer destralhes constantes de acordo com as categorias que ela sugere, fazendo montanhas de coisas e pegando cada uma nas mãos. Fiquei com menos itens comigo do que os que separei para vender ou doar, e jamais acumulei essas coisas novamente. Até mesmo livros, que são meu ponto fraco, eu sempre vendo, troco ou dou quando vejo que não há mais motivo para eles estarem comigo. Tem vários posts aqui no blog com a categoria "minimalismo" onde mostro antes e depois das minhas coisas. 

Na série "Ordem na casa", temos 8 famílias bem diferentes etnicamente, de classes sociais, idades, crenças, orientação sexual totalmente diversas. Uma viúva que quer reconstruir a vida após a perda do marido, um jovem casal homoafetivo que quer preparar a casa para a visita dos pais, um casal aposentado cuja família possui a mesma casa há 3 gerações. 

E muita, muita tralha. Muito lixo. Muita bagunça. 

O casal aposentado se livrou de mais de 150 sacolas de lixo. Vocês têm noção do que é viver num ambiente com coisas que você sequer sabia da existência? Coisas que jamais foram tocadas ou tiradas de caixas? Um casal que havia se mudado há 7 anos ainda tinha caixas fechadas da mudança na casa deles, e na hora de destralhar, a moça, apegadíssima a tudo, não queria se desfazer por nada no mundo, mesmo sem saber o que havia dentro delas. Tem um fenômeno curioso de observar durante os episódios, o tipo de coisas que as pessoas se apegam e acumulam (geralmente usando a desculpa de estarem colecionando), na maior parte das vezes são itens ligados a alguma memória afetiva de infância. O homem que não tinha grana pra ter tênis na infância e passou a comprá-los compulsivamente sem jamais usá-los, chegando ao ponto de ter 160 pares de sapato e um quarto só para eles. Foi triste ver que ao partir para o destralhe desses itens e pegá-los nas mãos, a maior parte dos sapatos se desfazia, apodrecidos, sem jamais terem sido usados. Isso é infelizmente mais comum do que imaginamos. 



Muitas vezes a gente compra alguma coisa motivado por mecanismos inconscientes, para compensar alguma frustração ou para tentar replicar alguma memória. Infelizmente em alguns casos ficamos com objetos ocupando espaço, energia parada dentro de casa, pois os objetos não cumprem essa função. Também somos motivados por desejos que surgem (ou são sugeridos) na hora da compra (e deixando bem clara a ênfase na diferença entre compras por desejo x compras por necessidade), e a psicanálise, principalmente lacaniana, explica bem a questão do desejo como combustível, as compras que fazemos para preencher uma falta e que não a preenchem e assim que chegamos em casa com o item na sacola ele já não proporciona satisfação e precisamos de mais alguma coisa que não temos (e teremos que comprar). A publicidade se apropria disso para nos fazer consumir cada vez mais, estimulando essa sensação de "falta", de incompletude, de insatisfação. 

Todas as famílias tinham em comum o fato de que as coisas estavam dominando o espaço que era pra ser chamado de lar, mas que por conta da desordem, do acúmulo e da sujeira, causavam frustração, brigas, desconforto e acusações entre os membros da família, cada um projetando no outro a culpa pela situação familiar. O psicanalista Sigmund Freud disse certa vez a uma paciente algo que li e jamais esqueci: “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”. Boa parte das coisas que acontecem conosco só acontecem com a nossa permissão e temos que assumir a responsabilidade disso. 



No primeiro episódio da série, Marie visita um jovem casal com 2 filhos, cujo marido trabalha fora e a esposa trabalha meio período, cuidando das crianças o restante do dia. O marido colocava na esposa toda a responsabilidade da desordem da casa, principalmente pelas roupas a lavar. Não me recordo de em algum momento ele ter assumido qualquer papel na limpeza ou na organização da casa em seu depoimento. Apenas quando Marie entra na vida deles e explica seu método, ele passa a perceber que também vive ali, que também tem um papel a desempenhar. 

Em outro episódio, a mãe chora de culpa e estafa por não conseguir mais lidar com a desordem na casa, com dois filhos pré-adolescentes que ligam a todo o momento porque não sabem encontrar nenhuma peça de roupa: "é mais fácil perguntar pra ela porque ela sabe onde está tudo", dizia o menino enquanto a mãe chorava. A série acima de tudo me fez ver, e ficar revoltadíssima, com o papel que uma mulher ainda tem que desempenhar enquanto residente em uma casa, o quanto marido e filhos projetam toda a responsabilidade pela própria desordem. 



Numa coisa a série acerta bastante: a Marie não arruma a bagunça de ninguém. Ela entra na casa das pessoas, explica como funciona o método Konmari e deixa que as famílias cuidem de suas próprias coisas, atribuindo a cada um, inclusive crianças, questionar o valor do que possui e a necessidade de possuir. O rapaz do tênis cuidou dos seus tênis sozinho. A senhora que colecionava itens de natal cuidou da sua coleção sozinha. Ninguém pode entrar na sua vida e arrumá-la pra você (nem mesmo na terapia isso se faz, e é por isso que muita gente não gosta de terapia). E mesmo se alguém fizer isso, pode apostar que daqui a alguns meses ou anos tudo voltará ao que era, pois a responsabilidade é sua e apenas sua. 

De forma geral eu gostei bastante da série, embora tenha me sentido em alguns momentos num episódio de "Acumuladores". Acredito que seja uma boa mensagem para que paremos e reflitamos sobre nossas necessidades, sobre as coisas que possuímos e sobre o que de fato tem importância na nossa vida. É um bom aprendizado!

Que tal aproveitar esse início de ano para colocar ordem na sua casa? :)


Você também pode gostar

0 comments

Obrigada por ler o post até o fim! Eu sempre respondo os comentários, então se você gostaria de ver minha resposta, clique no botão "notificar-me"!
<3

Subscribe