As relações pessoais e o descontentamento na obra "Meia-noite e Vinte", de Daniel Galera

15:49

Eu gosto de ler Daniel Galera em anos ímpares. Em 2013 eu li “Até o dia em que o cão morreu” e gostei bastante, apesar de ser um livro curto. Em 2015, “Barba ensopada de sangue” foi uma das melhores leituras que fiz: achei o enredo melhor desenvolvido e ainda mais introspectivo e niilista que do livro anterior, e me fez sentir socos no estômago a cada punhado de páginas.  “Meia-noite e vinte” foi minha primeira leitura de 2017, e fico muito feliz por seguir querendo ler tudo de Galera: ele sabe contar uma história.




Diferentemente dos dois livros anteriores, esse começa sendo narrado por uma personagem feminina, o que me causou certa confusão porque não fica explícito no texto até ter lido algumas páginas no primeiro capítulo; acabei tendo que retornar algumas casas pra reimaginar a coisa como sendo descrita por uma mulher.

O livro vai alternando núcleos narrativos e narradores para descrever como a morte de um escritor de Porto Alegre impacta de diferentes formas a vida de 3 pessoas que conviveram com ele no passado: Aurora, Antero e Emiliano fizeram parte da vida de Andrei “Duque” 15 anos atrás, durante o início da popularização do acesso à internet e o medo do “bug do milênio”, e sua morte os reúne e força a lembrar coisas do passado que compartilharam.

A internet, bastante citada no livro, é uma metáfora sobre como as relações pessoais são construídas. O filósofo polonês Zygmunt Bauman, que morreu à época da minha leitura, coloca em foco através da sua teoria de Modernidade Líquida e Amor Líquido algo que pode explicar o motivo do incômodo que a leitura gera: “as relações afetivas se dão por meio de laços momentâneos e volúveis e se tornam superficiais e pouco seguras (amor líquido). No lugar da vida em comunidade e do contato próximo e pessoal privilegiam-se as chamadas conexões, relações interpessoais que podem ser desfeitas com a mesma facilidade com que são estabelecidas, assim como mercadorias que podem ser adquiridas e descartadas.. (...) As relações se misturam e se condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz. Seja real ou virtual.”

É essa a sensação que fica muito clara com o decorrer da leitura: como pessoas que fizeram parte uma da vida da outra podem se afastar e se tornar estranhas, mesmo tendo compartilhado tanta coisa, afetos e projetos de vida. Ver a dinâmica do distanciamento dos personagens gera um mal-estar que nos faz observar nossas próprias relações com o outro, nossas próprias dinâmicas.


Além da tragicidade que provoca o reencontro dos personagens, nos deparamos também com questionamentos sobre como a sociedade atual lida com a tecnologia, ao olhar para o passado e ver como a coisa toda tomou forma no início. Leitores de 25 anos ou mais certamente se identificação com várias passagens do livro, cuja capa, que remete a um letreiro neon e que brilha conforme você a movimenta, foi um trabalho muito bem pensado da editora Intrínseca e remete muito bem aos temas centrais do livro: relações pessoais e tecnologia.

Enquanto em "Barba" Galera demonstra a insatisfação e falta de perspectivas de um único personagem, aqui ele nos entrega quatro vidas unidas pelo descontentamento em uma sociedade que parece andar a beira de um colapso.

Algumas perguntas que permeiam o livro são: até que ponto as questões que surgem com a morte de um ente querido podem ser respondidas? Até que ponto as relações são realmente desfeitas com o distanciamento e qual o impacto daqueles que passam pela nossa vida provocam ao partir? A resposta, assim como o desfecho de cada um dos personagens, fica a cabo do leitor imaginar.



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