Diário de uma escrava: forte, real e necessário

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Sinopse: No Brasil, todo ano, 250 mil pessoas desaparecem sem deixar vestígios. Desse total, 40 mil são menores de idade, dos quais um terço são meninas destinadas a fins sexuais. Muitas escapam ou são encontradas, contando histórias terríveis; outras nunca mais são vistas com vida. Laura foi raptada e jogada no fundo de um buraco por um completo desconhecido. Ela vê sua vida mudar, e passa a descrever com detalhes íntimos cada dia, cada ato, cada dor que o sequestro e o aprisionamento lhe fazem passar. Estevão é um homem casado e trabalhador, mas que guarda em seu íntimo uma personalidade psicopata. Ele percorre ruas e cidades se apossando da vida de meninas ainda muito jovens. Mergulhando fundo nessa fantasia, ele destrói vidas, famílias e sonhos, deixando atrás de si um rastro de dor e morte. 

O livro de Rô Mierling foi lançado originalmente na plataforma Wattpad e contou com mais de um milhão e meio de leituras online até ser comprado e publicado pela DarkSide Books. Rô é ghost writer há mais de 10 anos e realizou um extenso trabalho de pesquisa em relatos reais que inspiraram a criação de sua história. Essa pesquisa está em um apêndice do livro que lista os principais casos utilizados como referência.

O livro é escrito como o diário de Laura, uma das várias meninas que Estevão sequestrou ao longo dos anos. Em um ponto da leitura comecei a anotar o nome de todas: Clara, Fanny, Cintia, Linna, Sofia, Mônica; mas chegou um ponto em que eram muitas e eu simplesmente não pude mais. Cada uma delas teve alguns parágrafos dedicados a quem eram e como foram raptadas, o que é um reflexo dos erros que as adolescentes e suas famílias cometem ao se expor em situações de vulnerabilidade, principalmente através da internet. Estes breves relatos servem de alerta sobre o perigo por trás de situações as quais não prestamos a devida atenção e cuidado.

 
Ao contrário das demais meninas, que sucumbiam rapidamente às precárias condições de higiene e privação de luz e nutrição, Laura sobreviveu e nos conta sua história através de seu diário.

“Unindo todas as experiências que vivi nos anos trancada nesse buraco, com a certeza de que não fui a primeira e com a impressão de que o Ogro sempre pode ficar mais cruel do que antes, sei que vou morrer aqui. Então, para que lutar? Para que resistir?” (p.41)

A narrativa alterna em alguns momentos para terceira pessoa, onde vemos Estevão e a vida que ele leva na sociedade, casado e membro da comunidade, e vemos também, brevemente, pontos de vista da família e do namorado de Laura.

As descrições de abuso físico, sexual e psicológico sofridos por Laura são muito intensas. Conforme avançamos na leitura, ficamos entorpecidos com tantas descrições, até que Rô nos serve com situações tão repulsivas que nos tentam a jogar o livro longe. No entanto, segui com a leitura por estar totalmente imersa naquele universo obscuro.


O final é chocante, pra dizer o mínimo. Eu tive que absorver bem o conteúdo e pensar bastante a respeito (além de conversar com alguns amigos que leram o livro também) para entender se havia gostado ou não. Inicialmente foi muito complicado aceitar o desfecho da história, apesar de ser bem crível (não vou citar o que acontece, mas envolve Síndrome de Estocolmo).


O meu principal problema com as decisões da Rô é que muito do trabalho que ela desenvolveu de denunciar esses casos e criar uma empatia com as vítimas meio que cai por terra graças a uma transformação sofrida no caráter da personagem principal. Ela não deixa de ser uma vítima e um fruto infeliz de todas as coisas que ocorrem com ela, mas o leitor passa a olhá-la com outros olhos. Esta a meu ver é a principal denúncia da autora, mas somente um olho crítico vai encarar dessa forma, de que ela continua uma vítima.

Algumas coisas me incomodaram muito, como as coincidências que aconteceram no decorrer da obra que seriam impossíveis na vida real, além de escolher falar sobre a investigação de um policial que foi um trecho totalmente aleatório e perdido na obra. Apesar disso, o livro segue prendendo o leitor.

Acredito que a intenção da Rô é chamar atenção para os casos de sequestro e desaparecimento de garotas, já que pouco se fala sobre o que acontece com elas e em muitos casos (como podemos ver no apêndice) não se encerram brevemente e geram anos de transtornos psicológicos para as vítimas, isto quando elas sobrevivem. Nesse caso, não considero as cenas de violência desnecessárias, até porque tem livro por aí com cena pior sem passar mensagem alguma. No entanto, a imersão na obra foi grande e em certos momentos foi difícil acreditar que era ficção.


O livro me lembrou bastante de dois outros que já li e tratam de sequestro de mulheres: o ficcional “O Colecionador” (1963), de John Fowles, que tem em comum com o Diário de uma Escrava as analogias de transformação das borboletas e o fato de ser contado através de diários, e 3096 Dias, autobiografia de Natascha Kampusch, que foi um dos livros de referência para Rô Mierling. Tem resenha desse último aqui no blog.



A edição como sempre é primorosa, capa dura e marcador de cetim, com ilustrações e corte das folhas em rosa e azul. Diário de uma Escrava não é um livro fácil e tampouco divertido. No entanto, considero necessário como denúncia social, apesar de ficcional, além de muito adequado para a linha editorial que a DarkSide tem seguido. 

Ficha Técnica 
Título | Diário de uma escrava 
Autor | Rô Mierling 
Editora | DarkSide® 
Edição | 1a 
Idioma | Português 
Especificações | 240 páginas 
Dimensões | 16 x 23 cm 
ISBN-10 | 9788594540195
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{ Esse livro foi enviado pela editora DarksideBooks para leitura e divulgação no blog }

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