Confissões do crematório e a certeza de que todos morreremos

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“Olhar diretamente nos olhos da mortalidade não é fácil. Para evitar isso, nós escolhemos continuar vendados, no escuro em relação às realidades da morte. No entanto, a ignorância não é uma bênção – é só um tipo mais profundo de pavor.”

Quando eu era adolescente gótica e subversiva falava por aí que ia morrer aos 32 anos e as pessoas ficavam chocadas, o que eu adorava. Mais de 10 anos depois, uma ex-colega de escola que não me vê há tempos conheceu meu namorido e perguntou para ele: “e aí, ela ainda diz que vai morrer com 32?”

Pode ter sido um caso excepcional e a memória dela seja muito boa, ou pode ser que o tema de fato cause tanta estranheza que um relato desses fique marcado. De qualquer forma, a morte ainda é um tabu, e seguimos fechando os olhos para o fato de que vamos morrer. O livro que falarei hoje trata disso: da morte, e da necessidade de encarar a morte como um processo natural da vida.

Caitlin Doughty é uma jovem de beleza incomum e voz profunda, que conquistou sucesso no Youtube através do seu canal Ask a Mortician, onde ela fala desde 2011 sobre tudo o que tem relação com a morte, através da experiência que adquiriu trabalhando em um crematório em São Francisco. Ela questiona e busca modificar a forma como a sociedade ocidental lida com a morte, através de seus vídeos, e de sua organização The Order of theGood Death, que visa reunir profissionais da indústria da morte, artistas, filósofos e cidadãos comuns para preparar uma sociedade amedrontada sobre a inevitabilidade da morte.

Em 2014 ela lançou o livro “Smoke Gets in Your Eyes”, aqui no Brasil chamado “Confissões do Crematório” onde ela rememora o período em que trabalhou no crematório, mas acima de tudo traz um histórico de como a sociedade lida com a morte, num trabalho de pesquisa muito bem feito, e advoga sobre a necessidade de encarar a mortalidade de frente.

Em dado momento na leitura me lembrei de um outro livro chamado “A Morte do Pai”, do norueguês Karl Ove Knausgard, em um trecho que é assim: “Estamos permanentemente rodeados por objetos e fenômenos do mundo dos mortos. Ainda assim, poucas coisas nos causam mais desconforto do que ver alguém preso a essa condição, ao menos se julgarmos pelos esforços que empreendemos para manter os cadáveres longe dos nossos olhos.” Esse trecho poderia ser escrito pela própria Caitlin, pois ambos encaram as coisas com um olhar filosófico e meio desalentado. Mais adiante, ele pode resumir bem empregos como os da Caitlin através da seguinte frase: “Uma cidade que não mantenha seus mortos longe dos olhos, que os deixe jazer nas ruas e calçadas, parques e estacionamentos, não é uma cidade, e sim um inferno. Não importa que esse inferno reflita de modo mais realista e profundo nossa conduta. Sabemos que ela é assim, mas nos recusamos a encará-la. Eis o ato coletivo de repressão simbolizado no ocultamento dos nossos mortos.”

Decidi colocar esses dois textos do Karl porque não apenas complementam tudo o que a Caitlin diz em Confissões, como corroboram através dessa visão não americana a necessidade que temos de falar sobre morte, de perceber que todo o mundo que a gente conhece vai morrer um dia, perceber que vamos morrer um dia, e que nosso corpo vai ficar feio e apodrecer e, mais além, existe uma indústria funerária que pode sugar o dinheiro da nossa família oferecendo opções desnecessárias em um de seus momentos mais vulneráveis, que é o luto. Decisões sobre cremação, embalsamamento, caixões chiques e lápides pomposas são a última coisa que você quer pensar quando um ente querido morre, mas ainda assim, como não se fala sobre isso, perdemos o tempo do luto e da despedida tomando decisões racionais, enquanto rimos das pessoas que aparecem na televisão planejando o próprio funeral.


SOBRE O LIVRO

O livro é uma série de crônicas sobre a vida de Caitlin, desde seu primeiro encontro com a morte, na infância, sua obsessão na adolescência até transformar isso em um modo de subsistência, entrando para a indústria funerária dos Estados Unidos e se formando em história com ênfase em morte e cultura. As páginas mostram desde seu primeiro dia na casa de cremação onde trabalhou por vários anos realizando as mais diversas atividades, desde barbear cadáveres até ir buscá-los em uma van no hospital ou no local da morte. Apesar da autora mencionar coisas da sua vida pessoal, as páginas do livro são um grande questionamento sobre a cultura ocidental contemporânea relacionada a morte e como ela pode ser prejudicial.

O tema é de fato bem mórbido, mas ela fala sobre morte com uma dose certa de humor, e com a naturalidade de algo que deve discutido, debatido e enfrentado sem medo.

“Somos animais glorificados que comem, cagam e estão fadados a morrer. Não somos nada mais do que futuros cadáveres.”

A edição brasileira foi lançada pela DarkSide Books em julho deste ano em um belíssimo exemplar de capa dura e laterais vermelhas. O projeto gráfico é muito bonito e condizente com o tema, e eu fiz um vídeo folheando para mostrar todos os detalhes dele. A tradução ficou por conta de Regiane Winarski. Devo destacar não apenas a forma como a Caitlin incorporou as pesquisas no seu texto, mas também a parte extra de notas sobre as fontes, que contém 6 páginas de muita informação para o leitor que desejar se aprofundar no assunto.


Esse livro tem me feito inclusive repensar as minhas escolhas sobre meu pós-morte. Até hoje a decisão que tinha tomado era a de que meus órgãos fossem doados e que era para me enterrar o mais brevemente possível, sem funeral. Mas algo no livro da Caitlin me fez questionar essa decisão. Talvez seja melhor, para os vivos que vão sentir minha falta, poder ficar um tempo comigo, vivendo as primeiras etapas do luto antes de me botar numa cova enquanto tentam digerir a situação. Ainda não sei o que pode ser melhor para eles, e sigo refletindo sobre isso. Afinal, a decisão deve ser tomada visando eles que ficam, que se importam, que estão vivos. Você já parou para pensar sobre isso? Me conta nos comentários!

FICHA TÉCNICA
Título: Confissões do Crematório 
Autora: Caitlin Doughty
Editora: DarkSide Books
Gênero: Não-ficção
Páginas: 272
Ano: 2016
Compre: Amazon
Adicione à estante: Skoob



{ Esse livro foi enviado pela editora DarksideBooks para divulgação no blog }

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