Precisamos falar sobre suicídio #setembroamarelo

05:40

Volta e meia falo sobre depressão aqui no blog, e não é só porque estou na faculdade de Psicologia. É porque eu sei através da experiência o que é conviver com essa doença e experimentar o fundo do poço dia após dia, por mais tempo que eu gostaria de lembrar. Quando ignorada ou em sua forma mais grave, ela pode evoluir de uma forma a fazer com que viver fique insuportável. Eu estive quase lá por mais de uma vez, e infelizmente, já perdi dois amigos, duas pessoas maravilhosas que tiraram a própria vida porque o fardo era pesado demais. 

Pare um pouco e pense a respeito. Você quase certamente já conheceu ou ouviu falar de alguém que se matou, mesmo que nada tenha aparecido na mídia. Sabe por quê? Suicídio mata mais jovens até 35 anos que o câncer, que muitos julgam ser o mal do século. Diariamente, 32 brasileiros tiram a própria vida. A SUPRE, iniciativa mundial da OMS para a prevenção do suicídio, estima que 800 mil pessoas morrem de suicídio por ano no mundo, o que configura uma morte a cada quarenta segundos. Pare e leia novamente esta frase. Uma pessoa se mata a cada 40 segundos. 

Suicídio é um problema complexo para o qual não existe uma única causa ou uma única razão. Ele resulta de uma interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais. A falta de políticas públicas e o tabu social em torno do tema dificultam mais ainda questionar esses números. O problema é que, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, 9 em cada 10 mortes poderiam ser evitadas. Mas como?

O medo, o preconceito e o desconhecimento silenciam a sociedade e consequentemente fazem muitas vítimas que poderiam ser ajudadas caso o assunto fosse abordado com mais liberdade, estimulando a prevenção. Vergonhosamente, nosso país não dispõe de diretrizes oficiais para lidar com a situação, fazendo com que em nosso sistema de saúde cada um aja por si. 

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Em virtude desta carência de ações efetivas o Centro de Valorização da Vida (CVV), juntamente com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina iniciaram a campanha Setembro Amarelo, de conscientização sobre a prevenção do suicídio. O intuito é alertar a população sobre a realidade do suicídio no Brasil e no mundo e suas formas de prevenção. Uma das formas de mudar esses números é falar abertamente sobre isso e entender essa dinâmica. 

O estigma em torno do tema impede muitas pessoas de procurarem ajuda. O suicida infelizmente é visto como fraco, derrotado, incapaz. Quando alguém fracassa na tentativa de suicídio, fica marcado pela sociedade, às vezes pelo resto da vida. Uma pessoa que está passando por ideação suicida simplesmente não sabe o que fazer ou para onde ir para que alguém a ajude, ou muitas vezes não encontra ajuda onde mais precisa: na família, nos amigos próximos e no sistema de saúde. 

Se o assunto fosse abordado mais frequentemente e as informações corretas fossem disseminadas, vidas seriam salvas, sofrimento seria evitado. Alguns mitos comumente repetidos sobre suicídio devem ser esclarecidos.

Nem todas as pessoas que tentam ou cometem suicídio tem alguma doença mental ou são dependentes químicas. Em vários casos o suicídio é um ato impulsivo que ocorre durante uma crise e a pessoa não possui estruturas para lidar com a situação. Desemprego, separação, luto ou outras doenças podem culminar em suicídio. 

Algumas pessoas acreditam e propagam que "quem quer se matar, não avisa, simplesmente faz"; no entanto, em geral a pessoa com ideação suicida comunica de alguma forma a vontade de morrer, seja verbalmente através de frases como "não tenho mais esperanças", "queria estar morto", ou mudando bruscamente de comportamento, parecendo despedir-se de amigos ou parentes, demonstrando completa falta de interesse em atividades prazerosas. Essa comunicação significa que a pessoa está pedindo ajuda, e o pensamento suicida ocorre porque ela pensa que não há mais solução. Certamente há casos em que não houve qualquer mudança de comportamento ou aviso, mas é importante saber quais sinais são esses para poder identificá-los.

Além disso, acredita-se erroneamente que falar com uma pessoa sobre sua vontade de se matar pode induzi-la a fazê-lo. Num estado de total desespero, a pessoa pode falar, ficar doente ou se matar. Esses indícios não podem ser menosprezados. Diante de uma situação dessas, se colocar a disposição para ouvir uma pessoa pode ser crucial. Não é preciso estar treinado para ter uma conversa dessas, basta ouvir atentamente, sem preconceitos ou críticas. 

Durante todo o mês tenho visto pessoas se dispondo nas redes sociais a conversar sem julgamentos com amigos e contatos que estejam com problemas. A iniciativa é muito bonita, e conversar, ouvir, ser empático não é privilégio de psicólogo ou profissional de saúde. No entanto, recomendo uma leitura como, por exemplo, desta cartilha elaborada pelo CVV com várias informações sintetizadas e muito úteis para quem quer aprofundar-se no assunto. Em post aqui no blog também informo sobre como identificar e combater a depressão

O comportamento suicida é um ato repleto de ambivalência, entre o querer morrer e o querer viver de maneira diferente. Educar a sociedade sobre o tema pode ser um dos passos mais importantes para mudar a vida de alguém. 

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