Guia de Leitura: Charles Bukowski

14:39

Nos últimos anos Charles Bukowski tem se tornado a nova Clarice Lispector, e não é raro encontrar frases dele circulando nas redes sociais. Dentre os inúmeros compartilhamentos, quem de fato dedicou algumas horas de sua vida para ler sua obra? Por ser de caráter extremamente autobiográfico, as pessoas que não são familiarizadas com o Velho Safado podem ter algumas dúvidas na hora de pegar um livro e iniciar a leitura, então este post, construído em conjunto com dois amigos, Larina Rosa e Kenny Diaz, vai te ajudar a entender melhor a vida e obra de Bukowski e a decidir o que ler. Vamos lá?

Charles Bukowski henry chinaski guia de leitura velho safado buk

Henry Charles Bukowski Jr nasceu na Alemanha em 16 de agosto de 1920 e mudou-se para os Estados Unidos ainda criança, aos três anos, com seu pai, um soldado, e sua mãe, uma jovem submissa. Morou em Los Angeles por grande parte da sua vida, e cresceu na catastrófica Grande Depressão econômica que durou vários anos, causando desemprego e fome. Desde cedo Bukowski demonstrava interesse e talento na escrita, mas seu pai costumava rasgar seus manuscritos e o relacionamento dos dois era bem conflituoso, com abusos físicos e psicológicos. Na adolescência, sofreu com uma crise severa de acne que o levou a fazer tratamento num hospital público, e acabou para sempre com sua confiança e auto-estima. Seu pai o expulsa de casa ao ver que ele não parava de escrever, mas mesmo assim, aos 24 anos, ele publica seu primeiro conto e segue escrevendo, abusando do álcool e do cigarro. A escrita mal lhe dava meios de subsistência, então ele começa a trabalhar nos Correios e assim permanece por 14 anos, publicando contos, crônicas e poesias. Após receber uma proposta para publicar seu primeiro livro, (Post Office, publicado no Brasil como Cartas na Rua), ele abandona o emprego e dedica-se à escrita até sua morte, em 1994.

Sua obra é imediatista e livre de estruturas. Frases curtas permeiam seus romances, contos e poemas, e neles figuram prostitutas, bêbados, corridas de cavalo, miséria e marginalidade. Em sua vida publicou 6 romances: Cartas na Rua (1971), Factótum (1975), Mulheres (1978), Misto Quente (1982), Hollywood (1989) e Pulp (1994). Todos, exceto Pulp, são protagonizados pelo seu alter ego, Henry Chinaski. São 8 livros de contos publicados em vida e mais de 30 livros de poesia. No Brasil, a principal editora responsável pela publicação de seus livros é a L&PM, que já publicou quase 20 livros. Além dela também alguns livros de poemas da editora 7Letras, uma biografia chamada "Vida e Loucuras de um Velho Safado" escrita por Howard Sounes esgotado pela editora Conrad e relançado recentemente pela editora Veneta. Tem também um livro lindo da Martin Fontes chamado "Traz teu amor pra mim" com três contos do Velho safado.

Charles Bukowski henry chinaski guia de leitura velho safado buk

ROMANCES

Apesar de ser possível ler os romances em qualquer ordem, eles têm uma linearidade onde é possível visualizar toda a sua vida cronologicamente. No entanto, a publicação de seus livros não segue essa cronologia. É perigoso iniciar a leitura por um livro como Mulheres ou Hollywood, pois as coisas que ele retrata em livros anteriores são fundamentais pra compreender porque ele era, em suma, um bêbado misógino. Destacamos abaixo a ordem cronológica dos acontecimentos dos romances para quem desejar ler por essa perspectiva:

  1. MISTO QUENTE: Se você já ouviu a frase: "quem não leu Misto-quente, não leu Bukowski", saiba que está correta. Para compreender onde surgiu a amargura do autor que o acompanhou o resto da vida em suas futuras obras, é preciso ler Misto-Quente e entender o caráter de Charles Bukowski descrito na vida de Henry Chinaski, o alter-ego do autor. O livro relata a infância e adolescência pobre vivida na recessão de 1929. Com um pai violento, muitas espinhas e um mundo cada vez menos favorável às pessoas problemáticas, Buk retrata o sofrimento vivenciado por ele na dura realidade dos dias,da infância aos 21 anos, até a descoberta da literatura e do álcool.
  2. FACTÓTUM: No segundo romance publicado é possível acompanhar o nosso anti-herói em guerra. Sem conseguir entrar no serviço militar por ser considerado inapto, Bukowski nos revela a vida americana em plena a Segunda Guerra Mundial. Vivendo a luta de sobreviver sem emprego fixo em um país em torno da guerra onde os homens alistados são considerados heróis, ele apresenta sua vida conturbada sem perspectivas de melhora acompanhada apenas de sua vontade de escrever. 
  3. CARTAS NA RUA: "Tudo começou como um erro" é a frase que dá início ao primeiro romance publicado por Bukowski, simbolizando sua escolha de ser carteiro aos 30 anos, emprego que entre indas e vindas mantém por 14 anos. Chinaski retrata as instituições e a sociedade de forma ríspida e hilária, com uma sinceridade quase cáustica, e usa seu pouco dinheiro para beber e apostar em corridas de cavalos. Passa as noites bebendo e escrevendo e vai trabalhar sempre de ressaca, porque esse trabalho é só um trabalho.
  4. MULHERES: Um dos livros de conteúdo mais polêmico, nele Chinaski, com 50 anos, colhe os frutos de sua carreira literária em ascensão e se deleita com todos os tipos de mulheres, realizando os desejos que teve em sua adolescência conturbada devido as dificuldades de arranjar mulher por conta das espinhas. De todos os nomes, formas, cores e idades, as mulheres de Chinaski são tratadas como meros objetos e isso pode causar certo desconforto em algumas pessoas, principalmente pela linguagem obscena e sem censura utilizada no livro.
  5. HOLLYWOOD: O livro conta a experiência de Bukowski através de Chinaski, ao ser contratado para escrever o roteiro do filme Barfly que foi lançado em 1987. Bukowski sempre detestou televisão e cinema, mas foi convencido pela grana oferecida e pelos argumentos do idealizador do filme. Então vemos Chinaski em Hollywood com sua esposa Sara, vivendo no odiado glamour e luxo da vida cinematográfica enquanto escreve e passa pelos problemas do dia a dia de filmagem. 
  6. PULP: Pulp foi o último romance escrito antes da morte de Bukowski, publicado postumamente e o único sem o protagonista Henry Chinaski. Nick Belane é o detetive protagonista que narra a história em primeira pessoa, enquanto tenta solucionar alguns crimes. Nas entrelinhas da história é possível encontrar alguns traços da própria personalidade de Bukowski e a morte é o tema central. Dizem que ele estava muito doente enquanto escrevia e teve problemas para terminar o livro. 
BÔNUS: O CAPITÃO SAIU PARA O ALMOÇO E OS MARINHEIROS TOMARAM CONTA DO NAVIO: Publicado 4 anos após sua morte, o livro é composto de trechos de seus diários desde 1991 até pouco antes de sua morte em 94. A leitura desse livro é uma boa pedida para observar como Bukowski passou seus últimos anos, sua rotina com a mulher, e aprendendo a usar o computador ao invés da máquina de escrever. Indubitavelmente ácido e crítico, ele continua bebendo e criticando a sociedade, e jamais deixa de escrever.



CONTOS 

O anti-herói vagabundo Henry Chinaski é o personagem principal de grande parte também de seus contos e poemas. Nas coletâneas "A Mulher Mais Linda da Cidade, Notas de um Velho Safado, Ao Sul de Lugar Nenhum, Crônicas de um Amor Louco e Numa Fria", sendo esses últimos dois volumes da série Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, vemos histórias curtas recheadas de sarcasmo, misantropia, álcool e falta de perspectiva. 


POEMAS

Pássaro Azul é um ótimo poema para começar a ler Bukowski. Seus poemas transparecem um lado um pouco mais sensível, mas sem perder sua essência, como no trecho: "Há um pássaro azul no meu coração que quer sair, mas eu sou muito esperto, só o deixo sair às vezes à noite, quando todos estão dormindo. eu digo, eu sei que você está aí, então não fique triste." 

Confissão
(Tradução: Jorge Wanderley)

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.


Uma das coisas que ele mais odiava era fazer leituras de seus poemas, mas o dinheiro era bom e ele quase sempre vivia na beira da miséria. Mesmo concordando em ler para dezenas de pessoas pagantes, isso não o impedia de proferir palavrões e xingar o público, muito menos de beber doses homéricas de vinho ou cerveja enquanto lia. No documentário "Born into This", o diretor John Dullaghan passou sete anos pesquisando e filmando Bukowski, nele encontramos o Velho Safado sem censura. Felizmente, tem o documentário na íntegra legendado pra quem quiser se jogar:


Além disso, se você quiser ouvir mais poemas na voz do velho safado, nessa playlist do Spotify tem dezenas deles: playlist.

Gostaria muito de agradecer a Larina (que é dona da página Leitores Porto Velho) e o Kenny Diaz que tem um instagram maravilhoso com resenhas de livros, e cujas fotos maravilhosas ilustraram este post, sem sua ajuda esse post não teria saído! Agora você não pode mais dizer que tem desculpa pra deixar de ler o Dirty Old Man. Esperamos que tenham gostado! 

Você também pode gostar

0 comments

Obrigada por ler o post até o fim! Eu sempre respondo os comentários, então se você gostaria de ver minha resposta, clique no botão "notificar-me"!
<3

Subscribe