A Era Vitoriana, o medo de ser enterrado vivo e as histórias de Edgar Allan Poe - #12mesesdepoe junho

16:34

anna costa 12mesesdepoe edgar allan poe o enterro prematuro resenha


Algumas das coisas que mais nos fascinam pela Era Vitoriana são as fotografias pós morte e as histórias de pessoas que eram enterradas vivas, então hoje vamos falar de enterros prematuros. Doenças contagiosas como a cólera e ondas de calor eram motivos o suficiente para enterrar as pessoas o mais rapidamente possível após sua morte. Só que em alguns casos, algumas pessoas eram enterradas ainda vivas, por causa de diagnósticos errados, comas ou ataques de catalepsia.

Com a crescente ocorrência de casos de pessoas enterradas vivas, foram desenvolvidos mecanismos nos caixões e processos de enterros para que uma pessoa pudesse alertar o mundo exterior caso acontecesse com ela. Coveiros eram pagos para prestar atenção a qualquer barulho, e caixões vinham equipados com cordões que acionavam sinos ou bandeiras para alertar as pessoas que havia alguém vivo no túmulo. Eu até vi e divulguei uma postagem dizendo que a origem da expressão "salvo pelo gongo / saved by the bell" havia surgido dali, mas li no bizarrepedia que não passa de mito urbano. Tem um post muito bacana do blog Prelúdios & Noturnos sobre a origem da expressão. Vale a visita.

Outro mecanismo utilizado era chamado de escape vault, aonde os túmulos vinham com um dispositivo que permitia abri-lo por dentro. Inventores ganharam muito dinheiro com patentes de diferentes dispositivos - que nem sempre funcionavam.

Dado o enorme interesse popular por esse tipo de história na época em que Poe viveu, ele acabou escrevendo vários contos onde o medo de ser enterrado vivo faz parte das histórias. Podemos montar uma lista com "Berenice" que leremos no mês de outubro pelo desafio #12mesesdepoe, "O Barril de Amontilado", "A Queda da Casa de Usher", "O Gato Preto", e o conto do mês de junho, que foi "O Enterro Prematuro".

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O conto inicia como um ensaio, ao apresentar fatos reais de pessoas que foram enterradas vivas, e logo parte para uma ficção. Neste conto o narrador, como quase sempre, sem nome, relata os horrores de vários casos onde pessoas foram enterradas vivas e sobreviveram para contar suas histórias. No entanto o próprio narrador, por sofrer de catalepsia, uma condição temporária que se assemelha a morte, é obcecado e apavorado pela ideia de ele mesmo ser enterrado vivo, até um dia acordar em um caixão.

Assim como em "O Demônio da Perversidade", podemos observar as consequências do que um pensamento mórbido e obsessivo pode causar a uma pessoa, e os paradoxos que esse pensamento provocava no narrador: ele tinha medo de morrer, e por isso, deixava de viver. Ele tinha medo de ficar sozinho, no entanto, para evitar ser enterrado vivo, ele se afastou das pessoas e não saía mais de casa.

O narrador, confiante nas desabilidades causadas pela sua catalepsia, se vê pensando o tempo todo na possibilidade de cair em transe, e passa todo o seu tempo livre lendo a respeito, pensando a respeito, e tomando providências para que ele consiga sair do caixão caso acorde em um. Seu comportamento é de um homem torturado pelo Transtorno Obsessivo Compulsivo. Seu medo o invalida e o torna refém, e todos os seus atos e omissões são realizados em função de seu medo.

Poe calcula cada palavra para provocar ansiedade e medo no leitor, e no momento em que descreve as descobertas de seu narrador que se encontra no escuro, é como se o leitor estivesse vivenciando aquilo. Palavras são repetidas para enfatizar sentimentos de horror e construir a velocidade narrativa. Cada sentença nos conduz meticulosamente para o terrível momento em que o narrador acorda de seu transe cataléptico e percebe-se enterrado.

“Eu sabia que o ataque havia passado. Eu sabia que a crise do meu transtorno havia passado há muito tempo. Eu sabia que eu havia recuperado completamente o uso das minhas capacidades visuais – e, no entanto, estava escuro – tudo escuro – a intensa e absoluta ausência de raios solares da Noite que perdura para sempre.”

Diferentemente da grande maioria das histórias de Poe, esta, no entanto, tem um desfecho positivo e bem explícito que não vou mencionar para não tirar o prazer desta leitura. A quem tem acompanhado o projeto, um final feliz era algo quase inesperado depois de 5 meses de dúvidas e histórias com finais apavorantes. 

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