Resenha: O Demônio da Perversidade - #12mesesdepoe

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"Demônio da Perversidade" é um conto de Edgar Allan Poe, publicado pela primeira vez em julho de 1845 na revista Graham's Magazine. A primeira parte da estória é escrita em primeira pessoa como um ensaio filosófico e psicológico que busca entender os impulsos e instintos do homem, enquanto a segunda parte, mais concreta, ilustra o narrador em uma cela de prisão contando os fatos que o levaram a cometer e depois confessar um assassinato.

Uma das características mais peculiares na escrita de Poe, e utilizada em vários de seus contos como "O Gato Preto", "O Coração Denunciador" e outros, é que o narrador não é confiável. Seja por debilidades mentais ou por ser um observador parcial da narrativa, nem sempre é possível perceber quando ele está falando a verdade, se ele é são, ou mesmo se tem conhecimento de todos os fatos. Neste conto fica bem claro quando o narrador justifica seus atos através de um "princípio inato e primitivo, que podemos chamar de perversidade", que seria a tendência de praticar o mal pelo mal. 

O narrador sem nome parece ser bem educado e instruído e profundo conhecedor de filosofia, misticismo e religião. Durante os primeiros 16 parágrafos do conto, ele questiona a frenologia (uma pseudociência que baseia-se na falsa ideia de que as faculdades mentais estão localizadas em "órgãos" cerebrais na superfície deste que podem ser detectados por inspeção visual do crânio) e os instintos de sobrevivência do homem, como a necessidade de alimentar-se e procriar. Segundo as teorias que o narrador cita, essas tendências são voltadas ao bem estar e preservação da vida humana, mas a perversidade contraria todas as filosofias. É um impulso destrutivo e irresistível e mesmo assim, inato ao ser humano. 

Ao falar da perversidade, Poe está registrando, talvez pela primeira vez na história, a teoria da repressão, que só foi fundamentada e popularizada por Sigmund Freud por volta de 1892, ou seja, cerca de 50 anos depois. A repressão é um mecanismo de defesa onde o indivíduo tem dificuldade em reconhecer os impulsos que produzem angústia ou lembrar-se de acontecimentos passados traumáticos. No caso da estória narrada por Poe, o protagonista tenta justificar seus atos através da teoria da perversidade. Em suas próprias palavras:

"Se tanto me demorei neste assunto foi para responder, de certo modo, a pergunta do leitor, para poder explicar o motivo de minha estada aqui, para poder expor algo que terá, pelo menos o fraco aspecto que explique por que tenho estes grilhões e porque habito esta cela de condenado. Não me tivesse mostrado assim prolixo, talvez não me houvésseis compreendido de todo, ou, como a ralé, me houvésseis julgado louco. Dessa forma, facilmente percebereis que sou uma das incontáveis vítimas do Demônio da Perversidade." 

Poe não tenta se gabar de seu conhecimento ao encher metade do conto de teorias filosóficas. A prolixidade mencionada no trecho acima é uma prova da existência do demônio da perversidade. Segundo ele, não há homem que em algum momento da vida não tenha sentido um desejo ardente para atormentar um ouvinte por verborragia, entre outros exemplos.

Os atos que levaram o narrador a cometer um crime que o levaria a herdar uma fortuna são desconhecidos (justificando-se aí a presença do demônio da perversidade, ou mais corretamente, a repressão que impede o narrador de até mesmo falar sobre o que o levou a matar sua vítima). O clímax da estória ocorre quando o narrador, após correr pelas ruas tentando fugir do ímpeto de confessar, o faz rapidamente, como se o próprio demônio tivesse arrancado as palavras de sua boca. 

Vemos neste conto alguns aspectos da inventividade de Poe: uma mistura de gêneros narrativos que vagueia entre o ensaio filosófico e o conto de terror; e no o horror que se esconde no inconsciente do personagem, não no ato criminoso que ele cometeu, mas no fato de que ele foi marionete de seus próprios instintos destrutivos. Mas não somos todos? 

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Este é o segundo conto do Desafio #12mesesdePoe. Todos os meses lemos um conto pré-estabelecido e comentamos, fazemos resenhas e conversamos nos canais de discussão do desafio. Para saber mais: 

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5 comments

  1. Arrasou na resenha, Anna :) Gosto da forma como vc contextualiza e dá mais background pro conto. Resenha não é sinopse, obrigada por perpetuar isso. Smack! <3

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    1. Esse é o melhor elogio que eu poderia receber! Obrigada <3

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  2. Olá, muito boa a sua resenha. No primeiro conto do desafio eu tive que ler várias resenhas para conseguir entender a história, já nesse segundo a compreensão foi bem mais fácil e gostei mais dele.

    petalasdeliberdade.blogspot.com

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    1. Oie! Eu achei esse mais difícil do que o primeiro, mas o final faz tudo valer a pena :)

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  3. É um ótimo conto, apesar de todas aquela palavras, ideias e conceitos que acabam dificultando a digestão, digamos assim. Acho bacana a maneira que ele trata do assunto e ler a resenha me fez lembrar de uma velha tendência nossa: A de pagar o mal, pelo mal. Mas o que acontece? Geralmente só mais mal vem disto, nossa vontade de praticar o mal é tanta que geralmente não pensamos duas vezes antes de fazer algo ruim. Aí o conto já abre debates sobre um monte de coisa, tipo a natureza humana, bem e mal, livre-arbítrio ou determinismo. Pra mim ele passa a ideia de que o ser humano por si só é o responsável pelas suas escolhas embora tente sempre culpar outra coisa conforme o narrador mesmo o faz. Nossa necessidade de auto-preservação é tanta que no fim não enxergamos a verdade mas sim o que queremos enxergar. Notavelmente o narrador é vaidoso, arrogante e orgulhoso, características que acabam por levá-lo à ruína. Comentário grande, eu sei mas tinha que falar! Este conto me fez pensar em vícios meus e até me fazer tomar uma atitude a respeito!

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