Porque não sou mais publicitária (ou quase isso)

17:40


Se você já leu o meu perfil aqui no blog, viu que eu sou publicitária. Só que não mais. Durante a pesquisa de público que eu fiz meses atrás, alguns leitores comentaram que gostariam de posts mais pessoais, então achei que seria uma boa ideia começar o ano explicando por que eu não quero mais trabalhar com publicidade e decidi fazer psicologia.

Como já expliquei brevemente no post "A arte como escapismo", quando fui prestar o vestibular, eu tinha uma ideia fixa de fazer Artes Visuais. Como não havia esse curso na minha cidade, eu fiz o que achei que havia de mais próximo daquilo: Publicidade. Sou formada desde 2011, mas infelizmente o curso não foi nem de perto algo que me aproximou da arte ou me proporcionou a satisfação que eu gostaria. Além disso, minha experiência com agências de publicidade me fez chegar à conclusão de que somente o dono da agência consegue ganhar algum dinheiro e ele vai sugar a sua alma fazendo você trabalhar 24/7 pra conseguir isso. Infelizmente em cidade pequena publicidade é feita de uma forma muito arcaica, não há valorização financeira nem criativa.

Depois de formada comecei a trabalhar no setor de comunicação de um órgão público, onde estou até hoje. Logo no começo eu tinha um pouco de liberdade criativa, aprendi a fotografar e passei um bom tempo exercendo a função de fotojornalista, até que tive que assumir uma função extremamente burocrática analisando contratos e emitindo pareceres, e passei os últimos 3 anos fazendo isso. Não posso entrar em detalhes sobre tudo o que aconteceu, mas o resultado foi um estresse quase crônico, seguido de depressão que tem oscilado desde 2011 mais ou menos, e a minha total desconexão com a profissão.

Em março de 2014, minha melhor amiga cometeu suicídio depois de anos lutando contra uma depressão. Eu a conhecia há quase dez anos e sabia que ela tinha potencial para ser o que quisesse, fazer o que quisesse. A maior parte da minha tristeza reside no fato de saber que ela era uma pessoa maravilhosa e tudo o que fazia era muito bonito e caprichado, e ela tinha acabado de se matricular na faculdade de Psicologia.

Não vou mentir dizendo que o suicídio dela não influenciou minha decisão de cursar Psicologia. Influenciou de várias formas! Principalmente quando após alguns meses de sua morte a minha própria depressão se tornou insuportável e eu me obriguei a procurar ajuda psiquiátrica e psicológica. O contato com esse meio me fez muito bem, e as pesquisas que fiz sobre depressão me levaram a observar como esta profissão é bonita.

Desde que comecei a perceber que meu trabalho estava ajudando a me matar dia após dia, decidi voltar a estudar. O meu objetivo era um só: chegar um dia em que eu pudesse jogar meu diploma no lixo. Vários cursos passaram pela minha cabeça, incluindo Letras, Tradução, Arquitetura, até que um dia, como num estalo quase impossível de acreditar, eu pensei em Psicologia. Sim, foi totalmente impulsivo! Na semana seguinte já estava matriculada e logo depois comecei a estudar. Atualmente estou no quarto período, o segundo de 5 anos e até o momento não me arrependi.

Relendo todos os textos em que já toquei no assunto aqui no blog, seria óbvio supor que eu largaria a publicidade e viraria artista, mas as coisas não acontecem assim, e não se "vira" artista da noite pro dia. Eu ainda não larguei minha profissão porque eu tenho estabilidade, e pra quem tem depressão e tem que se sustentar isso é um fator essencial. Eu fui criada ouvindo todos os dias a seguinte frase: "você tem que aprender a se sustentar sozinha e jamais depender de ninguém". Isso ficou grudado pra sempre na minha cabeça, só com muita terapia pra destrinchar isso aí, e enquanto isso não acontece eu me sinto na obrigação de ter outra formação superior pra poder abandonar minha atual profissão.

E quanto à arte? 
As minhas prioridades na vida são meu marido, minhas cachorras e meus livros. A arte na minha vida serviu para criar algo positivo de toda a tristeza que eu sentia, era uma válvula de escape. Ainda estou tentando administrar, compreender as novas formas que tenho que encarar a arte, e enquanto isso vou criando sem pretensões. Como não consigo pensar muito no futuro, vou vivendo um dia de cada vez com essas minhas decisões.


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19 comments

  1. Eu sempre quis cursar psicologia. Hoje, depois de ter cursado administração (Curso que ganhei bolsa) não tenho mais pique pra fazer outra faculdade, mas acho fantástico a psicologia como forma de ajudar o ser humano num mundo tão louco como o nosso. Boa sorte na tua jornada. Vá levando a arte paralelamente, se é algo que te completa e satisfaz.

    Beijos!

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  2. Eu já trabalhei em agência de publicidade e realmente detestei, é mercadológico demais para mim. Também me formei em comunicação, só que em Audiovisual, eu queria ser cineasta, ma num deu, porque preciso pagar as contas e tals heheheh. Mas tive a sorte de conseguir um empego numa escola de artes onde fotografo e faço projetos culturais,e estou cursando faculdade de Letras. Então é isso Ana, a vezes a gente tem que passar por uns caminhos tortuosos para se descobrir, eu gosto bastante da área de psicologia, tenho várias amigas formadas nessa área e são pessoas incríveis

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    1. Não sabia da sua formação em Audiovisual, poxa, eu acho o máximo! Obrigada por todo o apoio de sempre Kely!

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    2. Sim, me formei em 2012, eu gostei bastante do curso, mas é uma área dificil de emprego

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  3. Oiê Anna,

    Acho que compreendo o que tu falou sobre PP, estou cursando agr, não é o que mais amo, mas sou bom nisso, sabe? Tb tinha pretensões de cursar Artes Visuais, mas acabei caindo em Geografia QIDUIQHWDUIHQWD mas isso faz tempo, meu primeiro curso largado rs Anyway, tenho como meta ainda estudar psicologia, acho lindo compreender certas coisas que são tão singulares *.* acredito que a psicologia poderá me abrir muitas portas, não para exercer, não sei, meu sonho sempre foi ser professor, mas ao menos para compreender sabe?

    Enfim, fico feliz que apesar dos apesares, tu tenha encontrado algo que faça sentido e tenha valor, afinal esse é o objetivo da vida, viver por algo que valha a pena.

    Passe bem, moça :D
    xoxo

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    1. Me identifiquei com o "meu primeiro curso largado" hahaha. Sempre encontro esse tipo de gente na faculdade! Engraçado que eu não consigo largar nada sem concluir, mesmo que sofra durante o processo, o que de fato aconteceu com esse curso.

      Adorei teu comentário, muito obrigada!

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  4. Sempre bom saber mais de você <3 :)
    Pode continuar abrindo seu coraçãozinho pra compartilhar mais coisas, hihihi
    Bjs!

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  5. Depressão é muito sério mesmo. Tb penso em procurar ajuda profissional.

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    1. Se você tiver acesso a um profissional, não perca essa chance.

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  6. Me identifico muito com seu relato Anna. Me formei em publicidade também, trabalhei em agência, trabalhei no setor público e encontrei os mesmos problemas. Amo publicidade, como assunto a ser conhecido e estudado, mas detestei a parte do trabalho. Antes foi moda, adorei o assunto de novo, mas o trabalho era tão problemático quanto publicidade, ainda mais sendo esteticamente fora dos padrões. Mas toda essa trajetória me levou a descobrir algo que eu amo, que é dar aulas. Comecei a lecionar em 2015 e achei meu caminho. Hoje estou de novo na posição de vestibulanda, pois quero entrar em uma universidade pública para fazer Letras, para ir de cabeça na profissão que me representa.
    Boa sorte para todos nós inconstantes, curiosos e inquietos, que estamos em busca de um caminho!

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    1. Fiquei feliz lendo seu relato; a gente percebe que essa situação talvez seja mais comum do que a gente imagina, não é? Eu também tenho um desejo secreto de lecionar, mas não comunicação, talvez psicologia assim que me formar. :)

      Boa sorte para nós!

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  7. eu li esse relato com um aperto no peito. 3 amigos meus cometeram suicídio em um período de 2 anos (2011-2014) e foi muito pesado para mim. Mas de certa forma isso me abriu os olhos para vida e me fez querer dar passos maiores em busca de uma vida mais plena. Isso passou também por analises da minhas escolhas, de quem eu queria ser no mundo. Mas ao contrário de você, segui um caminho um pouco inverso: estava estudando pedagogia, para ser professora, e acabei me achando no design. Uma coisa louca, que nunca tinha imaginado para mim.

    eu ainda pretendo dar aulas, porque gosto. E pretendo fazer alguma formação superior na área de artes/design. E acho que esse processo de seguir caminhos distintos faz parte da vida. Não conheço ninguém que tenha seguido uma única linha reta. Somos seres muito complexos para nos encontrarmos em uma única caixinha :)

    Por isso fico feliz em ler que você não deixou a vida te paralisar. É assim que a gente caminha, construindo todos os dias um pouco a vida que queremos levar.

    Um grande beijo!
    Jess

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    1. Ai Jess, teu comentário fez meu dia. Não sabia que tinha passado por isso, eu só consigo imaginar a dor que tu sentiu e como foi difícil seguir com a vida, porque pra mim foi assim. Realmente essas situações fazem a gente colocar toda a nossa vida em análise, acho que esse blog ajudou a me salvar um pouco.

      Também tenho muita vontade de dar aulas; tive umas experiências dando mini cursos e palestras e acho que me saí bem. Mais pra frente vou me matricular numa pós de metodologia do ensino superior :)

      Obrigada por comentar, de verdade!
      Um beijo!

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  8. Confesso que este seu texto me pegou de jeito. Fiquei com vontade de compartilhar minha historinha (nem sei se pode, mas eu sou enxerida que só ^^).

    Me formei em PP ano passado e se não consegui um estágio sequer durante a faculdade, imagina agora depois de formada... Quem vai dar emprego pra uma publicitária sem experiência? Sinto que entrei em PP mais pelo termo que vem antes da habilitação: Comunicação Social. Comunicação é um barato! Mas confesso que a Publicidade não me preencheu. Claro que eu nunca trabalhei com ela, propriamente dita, para ter um parecer completo, mas tenho quase certeza de que não nasci pra isso. Não tenho talento pra coisa, o que me frustra muito.

    Um dos motivos que me fez desanimar foi a 'insistência' de que todo publicitário deve ser um design. Eu uso o Photoshop somente pra quebrar os meus galhos, não entendo nada de programação (ou sei menos que o básico de html e css) e minhas ilustrações são aquelas de palitinho, sabe? Passei quatro anos na faculdade vendo professores e colegas distribuírem layous perfeitos de peças impecáveis, quando o texto era uma grande bosta. Parei e pensei: se pra ser publicitária eu precisarei engolir o pacote Adobe e escrever faça com 'ss' (sim, os erros de português dos meus colegas de sala eram absurdos, mas nada importava se o layout estivesse perfeito), então eu não quero ser publicitária. Nem de longe eu sou uma boa escritora/redatora, mas no fundo era com isso que eu queria trabalhar: textos. Não consegui estágio por "escrever demais".

    Enfim... (vixe, escrevi a bíblia). Prestei vestibular para Ciências Sociais uma vez e não quis nem olhar o resultado por motivos de: quem se forma em Ciências Sociais? Não existe emprego pra isso. Se arrependimento matasse, agora só restariam minhas cinzas. Pela nota e a baixíssima concorrência, com certeza fui aprovada. Penso no que eu poderia ter me tornado se tivesse feito tudo diferente. Hashtag sonhadora. Hahahahha.

    Bom, já que não adianta chorar pelo leite derramado, o negócio é seguir em frente e mudar o rumo das coisas, não é? No momento não tenho como fazer uma outra faculdade, minha vida tá muito atordoada. Mas assim que tudo se acertar, talvez eu embarque numa nova empreitada. Enquanto houver vida e saúde, a palavra 'tarde' não faz morada.

    Beijos!

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    1. Nossa, me identifiquei demais com o teu relato! Eu também me incomodo demais com os erros de gramática e ortografia da galera da nossa área. Como é que quer ser "comunicador" se não sabe corretamente a nossa língua?

      Sei que é complicado parar no meio do caminho, mas pensa se vale a pena insistir em algo que não vai rolar. A vida é muito curta pra gente fazer o que não gosta, não é?
      Beijos!

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  9. Oi, Anna! Ontem, navegando entre outros blogs parei aqui. Fiquei encantado com tudo! Em alguns momentos da vida tudo parece dar errado. Para movimentar um dedo é uma luta. Mas precisamos seguir em frente e enfrentar os problemas. Eu sou formado na área de ciências e amo meio ambiente. Área que tenho até pós, mas nunca trabalhei com isso. Sou um funcionário burocrático, um técnico administrativo de um órgão público. Confesso que até gosto, não sei se tenho mais opção de não gostar, afinal ele paga as minhas contas. E, nesse momento, isso é suficiente.Mas todos os dias peno o que estou fazendo ali. Enquanto isso, tenho planejado fazer um Doutorado numa instituição que eu amo em São Paulo. Um passo de cada vez. Com esse projeto, parece que os meus dias ganharam mais vida, tenho me planejado e deicidido caminhos que me levarão a este lugar tão sonhado. Tenho fé que conseguirei. Aliás, todos conseguiremos. Basta não desistirmos e virarmos as páginas que precisam ser viradas, rasgadas etc.Desejo a vc muita fé e força. Tudo vai se resolver. O primeiros passos são os mais difíceis, mas vc tem feito a sua parte!

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    1. Oi Fábio! Obrigada por comentar, significa muito que tenha tirado uns minutinhos pra me dar uma força. Você tá certo, um passo de cada vez. :)

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Obrigada por ler o post até o fim! Eu sempre respondo os comentários, então se você gostaria de ver minha resposta, clique no botão "notificar-me"!
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